Aos nove anos, a
menina gorducha sentou-se em frente à televisão com o controle remoto em mãos,
enquanto passava pelos canais. Quando ela viu o baixinho de bigode, já idoso,
mexendo vigorosamente uma massa de cor marrom, espessa, dentro de uma tigela,
parou. Talvez a relação da imagem com o sabor que instantaneamente veio à sua
boca a paralisou e a fez aprender a receita do bolo de chocolate. Ou melhor,
anotar em algum caderno de tarefas da escola.
Correu para a
cozinha e gritou pela mãe. Farinha, ovos, óleo de soja, açúcar, fermento e
Nescau. “Só tem chocolate”, disse a mãe, para o desespero da menina. “Mas ele
disse Nescau! Não vai dar certo com chocolate”. A mãe insistiu e disse que
daria certo. Não deu, obviamente, mas não pela troca do ingrediente. Era o
primeiro bolo da menina de sobrancelhas grossas e olhar curioso. Embatumou,
assim como tantos outros bolos pelo resto de sua vida.
Os grandes momentos
da vida têm um pouquinho de comida neles: o doce pós-término de namoro, a
coxinha murcha no aniversário do primo, a sopa no dia da dor de barriga ou as
mãos que se esbarram sem querer na bisnaga de catchup na barraquinha de
cachorro-quente. Nenhuma memória está completa sem a presença do alimento. Com
ele, novos retalhos são costurados à colcha.
Na frustração, a
comida pode ser a salvação. Um dia despretensioso, de aniversário, era
necessário um bolo, mas a opção da noite foi um brownie. Era doce, era de
chocolate, era fácil. “Vai o brownie mesmo”, pensou. Levou o bendito do doce,
que fez sucesso não apenas na mesa, mas no bar inteiro. Perguntaram quem fazia,
perguntaram onde comprar. Nasceu a possibilidade e morreu a impaciência.
Os próximos dias
foram renovados e o brownie se manteve ali, presente, como um companheiro de
longa data. Poucos acreditariam no que essa parceria tornou possível, porque é
muito profundo para explicar. A saída? Assar brownies. Muitos deles.
Chocolate
meio-amargo, manteiga, açúcar refinado, açúcar mascavo, farinha de trigo, forma
de alumínio, batedeira, colher de pau (proibida, o que torna a produção ainda
mais interessante) e fogo. Engraçado como o fogo é a última etapa para muitas
receitas, quase que se purificasse o prato. Tudo que vai para mesa, então,
torna-se sagrado?
Tem um pouco de
brigadeiro, outro tanto de prestígio, talvez uma avelã ou um pistache. Pode ser
sem nada. O creme se aquece, a química acontece e a massa se fortalece. A rima
é proposital, porque todo doce deveria ser apreciado como uma poesia. Vem um
palito assanhado, fura e escapa. Está pronto. Depois de frio, chega o momento
da verdade, o corte. Cada pedaço tem um destino, uma expectativa. Cada pedaço
tem seu próprio cúmplice e todos sabem que o único crime seria não fazer parte
desta experiência.
Uma vez me disseram
que só tinha chocolate. Ainda bem.