quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Só tem chocolate

Aos nove anos, a menina gorducha sentou-se em frente à televisão com o controle remoto em mãos, enquanto passava pelos canais. Quando ela viu o baixinho de bigode, já idoso, mexendo vigorosamente uma massa de cor marrom, espessa, dentro de uma tigela, parou. Talvez a relação da imagem com o sabor que instantaneamente veio à sua boca a paralisou e a fez aprender a receita do bolo de chocolate. Ou melhor, anotar em algum caderno de tarefas da escola.

Correu para a cozinha e gritou pela mãe. Farinha, ovos, óleo de soja, açúcar, fermento e Nescau. “Só tem chocolate”, disse a mãe, para o desespero da menina. “Mas ele disse Nescau! Não vai dar certo com chocolate”. A mãe insistiu e disse que daria certo. Não deu, obviamente, mas não pela troca do ingrediente. Era o primeiro bolo da menina de sobrancelhas grossas e olhar curioso. Embatumou, assim como tantos outros bolos pelo resto de sua vida.

Os grandes momentos da vida têm um pouquinho de comida neles: o doce pós-término de namoro, a coxinha murcha no aniversário do primo, a sopa no dia da dor de barriga ou as mãos que se esbarram sem querer na bisnaga de catchup na barraquinha de cachorro-quente. Nenhuma memória está completa sem a presença do alimento. Com ele, novos retalhos são costurados à colcha.

Na frustração, a comida pode ser a salvação. Um dia despretensioso, de aniversário, era necessário um bolo, mas a opção da noite foi um brownie. Era doce, era de chocolate, era fácil. “Vai o brownie mesmo”, pensou. Levou o bendito do doce, que fez sucesso não apenas na mesa, mas no bar inteiro. Perguntaram quem fazia, perguntaram onde comprar. Nasceu a possibilidade e morreu a impaciência.

Os próximos dias foram renovados e o brownie se manteve ali, presente, como um companheiro de longa data. Poucos acreditariam no que essa parceria tornou possível, porque é muito profundo para explicar. A saída? Assar brownies. Muitos deles.

Chocolate meio-amargo, manteiga, açúcar refinado, açúcar mascavo, farinha de trigo, forma de alumínio, batedeira, colher de pau (proibida, o que torna a produção ainda mais interessante) e fogo. Engraçado como o fogo é a última etapa para muitas receitas, quase que se purificasse o prato. Tudo que vai para mesa, então, torna-se sagrado?

Tem um pouco de brigadeiro, outro tanto de prestígio, talvez uma avelã ou um pistache. Pode ser sem nada. O creme se aquece, a química acontece e a massa se fortalece. A rima é proposital, porque todo doce deveria ser apreciado como uma poesia. Vem um palito assanhado, fura e escapa. Está pronto. Depois de frio, chega o momento da verdade, o corte. Cada pedaço tem um destino, uma expectativa. Cada pedaço tem seu próprio cúmplice e todos sabem que o único crime seria não fazer parte desta experiência.

Uma vez me disseram que só tinha chocolate. Ainda bem.

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