segunda-feira, 10 de junho de 2013

De um sonho

Às vezes, eu queria ser uma menininha apaixonável e só.

Talvez eu seja apaixonável, mas sou só.

E é só isso.

domingo, 26 de maio de 2013

Deslize

Não pedi, não exigi
Não pressionei, não questionei
De tantas palavras ditas, as boas eu guardei
Pra quem sabe, um dia, poder dizer "não fui eu que errei"

--

Eu só esperei. 
O erro foi meu.

domingo, 19 de maio de 2013

10

Primeiro, você se retira. Não consigo abrir mão. Orgulho, talvez uma ilusão boba de que sou, de alguma forma, especial.

Segundo, você se cala. Não consigo não falar nada. Escrevo, mando, está feito. Parece que as palavras brotam como se uma represa tivesse suas comportas abertas.

Terceiro, você se retrata. Minhas intenções interpretam as suas. Acredito.

Quarto, você retoma. Pareço feliz, tudo volta ao normal, você tem o controle novamente.

Quinto, você promete. Me sinto aliviada, vou relembrar como você é, o cheiro que você tem, quão quente é a parte de trás do seu pescoço.

Sexto, você me declina. Quero entender, não consigo ter paciência, eu me entrego às confusões de um âmago convenientemente bipolar, coisa de ocasião.

Sétimo, eu me rebelo. Você não entende, esperava a ilusão de perfeição, de descomplicação. Foi demais pra mim, pesado, não consigo ser quem você quer.

Oitavo, você se elimina. Eu choro.

Nono, eu tento. Você, cínico.

Décimo. Em dez segundos acabei com tudo, com o resto que tinha. Não quero lembranças, não quero ter saudade do que nunca tive.

terça-feira, 14 de maio de 2013

Doses regulares

Não choro muito, mas voltei a chorar. Assim, fácil, como se o fizesse há anos. Sinto raiva quando choro quando não quero, sinto raiva de chorar quando estou com raiva. E hoje eu molhei meu celular. Fiquei com raiva e continuei a chorar.

Dizem que chorar faz bem, que liberta. Eu não gosto, me sinto exposta, mas confesso que a sensação pós-choro é estranha, parece que nunca aconteceu. Sempre fui assim. Choro, soluço, mal consigo enxergar. Esvazio. Continuo. Sinto como se tivesse descartado algo de mim mesma, não dado a importância suficiente, porque o choro acaba assim, de repente.

Poderiam receitar choros regulares: 
- Indicação: para momentos de desabafo ou angústia extremos;
- Posologia: três vezes ao dia, com intervalos de oito horas;
- Reações adversas envolvem travesseiros e golas de blusa molhadas, maquiagens borradas. 

O senhor doutor que me receitaria isso? Não sei, mas o mal que me causou a busca pelo remédio já causou uma infecção.

Saúde?

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Judas

O seu momento chegou, mas não estou inclusa nele.

Cedi, coisa que me machuca.

Parece quando Testemunhas de Jeová batem à sua porta perguntando "pode ceder um minutinho da sua atenção?". Deveria ter dito não, sempre digo não. Um minutinho da minha atenção representa um longo período de observação, de reflexão para acabar, assim, em um minutinho. Um minutinho em que perdi a minha atenção.

Cedi, coisa que faz eu me sentir traída. Traí a quem mais me interessa, eu mesma, essa companhia que tem estado comigo há anos, anos estes que se arrastaram e ensinaram a viver na tribulação, a viver só. A gente aprende a se defender por instinto e não me arrependo de não ter cedido antes. Pelo contrário, toda vez que me permito dar possibilidades é exatamente quando eu me sinto como Judas. 

Judas de mim mesma. Cedi, coisa que você nem percebeu.

terça-feira, 19 de março de 2013

Não ser humano

Por que tamanha fixação pelo dito que "nenhum homem é uma ilha" ou que "a felicidade só é real quando compartilhada"? Tenho uma natural pré-disposição a perder o interesse por falácias que se desgastam no popular. Me chame de arrogante, mas é assim que é.

Daí você se sente uma ilha, cheio de coisas para compartilhar e não tem uma ponte, uma régua que facilite o processo. Engraçado só perceber a antagonia agora: enquanto uma ilha precisa de ligamentos, a felicidade precisa ser porcionada, repartida. Quiçá seria melhor ser um monte de terra à espera de pontes ao contrário de um pote transbordando, que precisa ser quebrado para tocar outros? Não vejo sentido em ser muito feliz então.

O ser humano e suas contradições justificatórias para viver em comunidade. 

Então, se não quero um e desejo pouco do outro, estaria praticando um "não ser humano"? 

Que tola, era só perceber o verbo e não o substantivo. 

É apenas ser.

Sou assim.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Só tem chocolate

Aos nove anos, a menina gorducha sentou-se em frente à televisão com o controle remoto em mãos, enquanto passava pelos canais. Quando ela viu o baixinho de bigode, já idoso, mexendo vigorosamente uma massa de cor marrom, espessa, dentro de uma tigela, parou. Talvez a relação da imagem com o sabor que instantaneamente veio à sua boca a paralisou e a fez aprender a receita do bolo de chocolate. Ou melhor, anotar em algum caderno de tarefas da escola.

Correu para a cozinha e gritou pela mãe. Farinha, ovos, óleo de soja, açúcar, fermento e Nescau. “Só tem chocolate”, disse a mãe, para o desespero da menina. “Mas ele disse Nescau! Não vai dar certo com chocolate”. A mãe insistiu e disse que daria certo. Não deu, obviamente, mas não pela troca do ingrediente. Era o primeiro bolo da menina de sobrancelhas grossas e olhar curioso. Embatumou, assim como tantos outros bolos pelo resto de sua vida.

Os grandes momentos da vida têm um pouquinho de comida neles: o doce pós-término de namoro, a coxinha murcha no aniversário do primo, a sopa no dia da dor de barriga ou as mãos que se esbarram sem querer na bisnaga de catchup na barraquinha de cachorro-quente. Nenhuma memória está completa sem a presença do alimento. Com ele, novos retalhos são costurados à colcha.

Na frustração, a comida pode ser a salvação. Um dia despretensioso, de aniversário, era necessário um bolo, mas a opção da noite foi um brownie. Era doce, era de chocolate, era fácil. “Vai o brownie mesmo”, pensou. Levou o bendito do doce, que fez sucesso não apenas na mesa, mas no bar inteiro. Perguntaram quem fazia, perguntaram onde comprar. Nasceu a possibilidade e morreu a impaciência.

Os próximos dias foram renovados e o brownie se manteve ali, presente, como um companheiro de longa data. Poucos acreditariam no que essa parceria tornou possível, porque é muito profundo para explicar. A saída? Assar brownies. Muitos deles.

Chocolate meio-amargo, manteiga, açúcar refinado, açúcar mascavo, farinha de trigo, forma de alumínio, batedeira, colher de pau (proibida, o que torna a produção ainda mais interessante) e fogo. Engraçado como o fogo é a última etapa para muitas receitas, quase que se purificasse o prato. Tudo que vai para mesa, então, torna-se sagrado?

Tem um pouco de brigadeiro, outro tanto de prestígio, talvez uma avelã ou um pistache. Pode ser sem nada. O creme se aquece, a química acontece e a massa se fortalece. A rima é proposital, porque todo doce deveria ser apreciado como uma poesia. Vem um palito assanhado, fura e escapa. Está pronto. Depois de frio, chega o momento da verdade, o corte. Cada pedaço tem um destino, uma expectativa. Cada pedaço tem seu próprio cúmplice e todos sabem que o único crime seria não fazer parte desta experiência.

Uma vez me disseram que só tinha chocolate. Ainda bem.