segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Cigarra


Da janela da minha casa vejo uma árvore no quintal do vizinho. Há dias escuto as cigarras cantarem, muitas delas. Sei que são muitas pela quantidade de suspiros e cantorias. Dizem que os machos cantam bem alto para atrair as fêmeas em épocas assim, quentes. Quantos machos e quantos cantos mais vou escutar até o fim desse verão? 

Preciso dizer que senti uma tristeza estranha ao saber, não faz muito tempo, que as cigarras não morriam após emitir o seu canto. Essa crença surgiu, pois as pessoas viam as carcaças das cigarras presas às árvores, mas é apenas um sinal de que a fêmea tornou-se adulta e seguiu seu rumo. Foi deixar-se seduzir pelos altos brados de cigarrinhas charmosas e cheias de promessas.

Gostava mais da história da morte súbita. 

O ponto trágico dá um sentido à limitada e previsível vida da melódica cigarrinha. Me entristece saber que ao cantar ela se colocar à mercê do interesse da outra. Simples assim. Canta, se expõe, apresenta seu mais valioso dote e, mesmo assim, nunca estará segura de que atrairá a mais bela das fêmeas para dar sequência à sua linhagem.

Gostava mais da história da morte súbita.  Gostava da ideia de saber que a cigarra morria em êxtase, no ponto mais alto da sua existência.

...

Enquanto escrevo, olho pela janela. Há pombas por toda parte e elas insistem em invadir os galhos altos da pequena árvore. Vejo cigarras em seus bicos.

O canto cessa.

...

Gosto da história da morte súbita.

domingo, 30 de dezembro de 2012

Um tanto sem forma

Eu quero tanto, tanto. Quero tanto que esse tanto um tanto me sufoca. Me sufoca tanto que, quando dou por mim, parei de respirar. Sem ar, veja, é impossível pensar. Sem pensar, claro, é impossível agir. Me resta o instinto.

Eu quero tanto, tanto, mas o instinto quer de uma outra forma. Uma forma sem forma, que não existe de forma nenhuma. De qualquer forma, o instinto não interrompe, não pensa, não se cala. Ele apenas existe.

E se existir por instinto estiver errado?

Está errado.
Não está.

Quem vai me dizer o que é? Será que o instinto acontece por acaso?

Se, por acaso, eu descobrir, sei que de um tanto serei capaz, então.

sábado, 29 de dezembro de 2012

Voo, passarinho

Existem pensamentos indizíveis. Sentimentos que não devem ser compartilhados porque simplesmente não devem ser. Será egoísmo barato disfarçado de preservação? Será que ninguém vai entender?

Pessoas geralmente me motivam a provar de novas sensações, novos pensamentos. Mudar padrões, atropelar convenções e destruir opiniões. Assim me ensinou, certa vez, um homem que foi muito importante em minha vida. "A beleza da opinião está no poder em saber mudá-la", ele disse.

São pessoas assim que me motivam e... ah, como me lembro de algumas delas com gratidão, com uma saudade estranha, chega a ser uma raiva porque não compartilham mais dos meus dias. Algumas, porque se foram com a vida. Outras, porque não quiseram ficar. Algumas eu não quis que ficassem.

Muitas dessas pessoas entenderam, escutaram e, outras tantas vezes, nem isso. Elas apenas existiram, passaram. Nem sempre atravancaram meu caminho e eu, passarinho, as vi passar. Quantas vezes tornei a vê-las nas sombras de uma frase mal expressada, uma ação mal compreendida ou um olhar sem uma simples intenção. Esse, sim, é o que mais me traz agonia. Um olhar sem intenção é carregado de pouco, um muito de nada, ele passa e você o vê, mas ele passa porque não quer fazer falta. Ele não quer fazer falta em nada, em ninguém. 

Como esperar pelo dia em que acordarei e saberei que tudo o que é dito com alma é legítimo, nem sempre doce, mas possível, acessível. Você se tornou acessível e nem percebeu. Quem falou com alma? Apostar para saber pode sair muito caro.

Tem gente que faz eu me sentir assim, acessível, possível, realizável. Pode durar um momento, um sopro que vira mais uma página de um livro da alma, esse, que não pode ser reimpresso ou apagado. Pode ser rasgado? Quando arrancado ou dizimado se condena à uma eterna cicatriz, um amassado ou um corte, um fogo ateado e em seguida, arrependido. Cinza.

Estou vazia e eu sei o motivo. Não sei mais se é esse que me atormenta durante minhas noites, mas a dúvida me eleva para o céu dos indignados, dos questionadores. Purgatório, seria mais apropriado dizer. A dúvida se compara, em força, ao medo. Estes, paralisantes.

Quando me sinto prestes a voar é quando mais me prendo ao chão. O peso dos indizíveis é como um saco cheio de areia preso aos meus tornozelos, que se prendem aos meus calcanhares de aquiles. Tão frágeis.

Logo eu, que pensei saber voar.

Tem gente que me faz ter vontade de voar, mas suas infinitas boas intenções, carregadas de um egoísta eu ajudo, enchem os meus sacos de areia. Elas torturam meus calcanhares e em seu sadismo silencioso alcançam o máximo do êxtase. Me fazem tão frágil e eu não mais sei se posso voar. Elas não sabem o que fizeram.

Será que alguém vai entender?