Da janela da minha casa vejo uma árvore no quintal do vizinho. Há dias escuto as cigarras cantarem, muitas delas. Sei que são muitas pela quantidade de suspiros e cantorias. Dizem que os machos cantam bem alto para atrair as fêmeas em épocas assim, quentes. Quantos machos e quantos cantos mais vou escutar até o fim desse verão?
Preciso dizer que senti uma tristeza estranha ao saber, não faz muito tempo, que as cigarras não morriam após emitir o seu canto. Essa crença surgiu, pois as pessoas viam as carcaças das cigarras presas às árvores, mas é apenas um sinal de que a fêmea tornou-se adulta e seguiu seu rumo. Foi deixar-se seduzir pelos altos brados de cigarrinhas charmosas e cheias de promessas.
Gostava mais da história da morte súbita.
O ponto trágico dá um sentido à limitada e previsível vida da melódica cigarrinha. Me entristece saber que ao cantar ela se colocar à mercê do interesse da outra. Simples assim. Canta, se expõe, apresenta seu mais valioso dote e, mesmo assim, nunca estará segura de que atrairá a mais bela das fêmeas para dar sequência à sua linhagem.
Gostava mais da história da morte súbita. Gostava da ideia de saber que a cigarra morria em êxtase, no ponto mais alto da sua existência.
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Enquanto escrevo, olho pela janela. Há pombas por toda parte e elas insistem em invadir os galhos altos da pequena árvore. Vejo cigarras em seus bicos.
O canto cessa.
O canto cessa.
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Gosto da história da morte súbita.